FÉ E RAZÃO

"Omne verum, a quocumque dicatur, a Spiritu Sancto est"

Toda a verdade, diga quem a diga, vem do Espírito Santo

(São Tomás de Aquino)


Sobre a evolução da espécie humana.

(Lic. Néstor Martínez)

Ao se considerar a explicação evolucionista da origem do homem, um fato deveria vir à vista: a assombrosa exceção que significa o ser humano como momento do processo evolutivo.

Quer dizer, durante milhões de anos as espécies de seres vivos procederiam umas das outras, passando, sim, de seres menos perfeitos a seres mais perfeitos, melhor adaptados, mas sempre se mantendo dentro dos limites do reino natural.

Em que consistem esses limites? Em que a "história", que não é tal precisamente por isso, das espécies irracionais é cíclica, se repete sempre o mesmo esquema ao longo das gerações. Os cordeiros de hoje tem sido exatamente iguais a dois mil anos e continuarão assim até que haja cordeiros no planeta.

O animal irracional não transforma a natureza, inclusive quando parece que o faz, como no caso do cordeiro ou dos térmitas, o que faz é seguir um instinto natural que é sempre o mesmo para sua espécie.

O surgimento do ser humano no meio de toda essa natureza viva não-humana é algo como um fogo de artifício aceso de repente na noite.

Só a indiferença pode nos fazer ficar insensíveis a uma exceção tão clamorosa. De repente, aparece sobre a face do planeta um animal que é capaz de pensar e decidir, de planejar, de prever o futuro, de estudar os mecanismos naturais para imitá-los em suas invenções ou para aproveitar-se dos mesmos, de refletir sobre si mesmo e o que o rodeia e perguntar sobre sua própria origem e fim, de reconhecer sujeito a leis morais que não estão escritas em nenhuma parte mas que são mais fortes que as leis escritas, de criar civilizações, impérios, artes, ciências, religiões, etc. E de ter portanto o que as outras espécies nunca poderiam ter: história.

Frente a esse fato visível, que dizem os evolucionistas, que são materialistas? Apenas podem balbuciar algo sobre o tamanho do cérebro, do polegar, a postura ereta, etc.

É como se diante de um quadro de Rembrandt se começasse a fazer investigações sobre o tamanho do pincel, a composição química dos pigmentos, a solidez da tela, etc.

É muito mais "científico" crermos, reconhecer que no momento em que aparece o ser humano no planeta, o processo evolutivo recebe um "plus" de energia externa, algo como se um potente catalisador tivesse sido feito na matéria viva para fazê-la dar o salto que por si só não pode dar em milhões de anos.

Esse "catalisador" é precisamente o espírito, que por ser imaterial, não pode proceder da evolução. Mas que tem que ser dado pelo Espírito subsistente, Deus.

Os evolucionistas materialistas se preparam para tratar de dissimular este fato imenso recorrendo a gradualidade e aos longos períodos de tempo. Iludem-se, pensando que se há tempo suficiente, o selvagem irracional poderia se desenvolver até chegar a um Beethoveen, Aristóteles e Michelângelo.

Calcule o tempo que seria necessário, já que as espécies animais hoje conhecidas não registraram uma mudança importante em seu modo de viver desde mais ou menos 6000 anos que dura nossa história escrita!

Mas o tema da gradualidade é um tema muito difícil. Podemos entender que o primeiro ser humano subiu até o nível do último pré-humano. Se conheceram?

O caso é que com ele não se consegue nada. Porque por mais que o primitivo não-homem e o homem estivessem fisicamente próximos um do outro na pré-história, ainda estava longe um do outro, não por resultados imediatos que houvesse alcançado a raça humana, mas pela qualidade diferente do processo, do dinamismo em que se estava desde o começo.

E este novo tipo de processo e desenvolvimento pressupõe uma base ontológica, uma essência ou natureza, totalmente nova e original, que é ela mesma um ato e tem em potência todas as infinitas realizações possíveis do ser humano, que vão se desdobrando ao longo da história.

Não se desenvolveu mais do que já estava. Por mais parcido fisicamente que fosse aos não-humanos que o cercava quando veio ao mundo, o primeiro ser humano, pelo fato de ser a origem de um processo que termina na atual civilização, era já, de fato, essencialmente diferente de seus vizinhos.

Pode se perguntar: e por que a origem tinha que ser ele e não seus pais ou avós não-humanos?

E a resposta é óbvia. A humanidade e a civilização atuais tem saído de alguma parte. Do nada, nada sai. Não se chega a ser, mas o que se pode ser. Qualquer que tenha sido a origem da civilização atual, foi uma origem em que esta estava de algum modo "em potência". Não se desenvolve mais do que já está desenvolvido. Era portanto uma origem cuja estatura essencial humana foi no fundo a mesma que hoje em dia. Não se dá o que não se tem. Logo, foi uma origem humana, e então, não pode ser uma origem mais antiga (nem mais nova) que o primeiro homem.

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Isto parece uma resposta adequada a todos os evolucionistas cristãos que seguem a onda de Theilhard e de Rahner, que supõe que não há intervenção especial de Deus desde a criação da primeira matéria do Universo. Se é assim, então essa matéria já era humana em essência, de fato, pois não se dá o que não se tem. E então, todo o Universo, hoje em dia, é humano, o que, claro, é absurdo.

Se se dissesse que essa matéria inicial foi humana só em potência, então, ou se está dizendo que o mais sai de menos, o que é absurdo, ou se está dizendo que faz falta um suporte externo para a evolução para que possa dar-se ao ser humano. Mas não é certo que tudo se reduza a "deixar de evoluir" a matería incial.

Na realidade, Rahner parece dizer que Deus age dentro do processo evolutivo, de modo que o resultado é a vez imanente, sem intervenções divinas especiais, ou seja, superior ou nova aos seus ancestrais. O "plus" seria dado por esse "concurso evolutivo" divino. Assim, se me lembro, no artigo "Evolução", do diocionário teológico "Sacramentum Mundi".

Em primeiro lugar, tem que se deixar claro que nem sequer o poder de Deus pode fazer que o superior venha do inferior. Precisamente o "concurso evolutivo" de Rahner aponta que não se alcança com o inferior para se chegar no superior. Mas então, tampouco deve-se dizer: "agora sim, tendo o poder divino entrado em cena, podemos imaginar como o superior nasce do inferior". Não, pois o poder divino não está para dar conta disso, nem de como é posível que o círculo seja quadrado, ou que existem fábricas de agulhas.

Mas então, se não surge do inferior, o novo e superior não procede, propriamente falando, por evolução. E então, parece inevitável uma intervenção divina especial, "categórica", para usar a linguagem de Rahner.

A evolução, de fato, em seu significado mínimo, é a transformação gradual de uma coisa em outra. Agora, a filosofia elementar ensina que não há mudança possível sem uma causa. E a razão é que nenhum ente é por sí só suficiente para transformar-se em outra coisa. Porque a "outra coisa" é precisamente o que o ente em questão não é agora, mas potencialmente. E como ao ato é mais que a potência, para chegar a atualizar sua potencialidade de ser "outro", o ente que muda precisa do suporte de outro ente que já tenha de fato isso para o que ele está em potência. Assim, a água fria por si só nunca se esquentaria mas o fogo, já quente de "fato", é capaz de esquentá-la. Isso mostra que quando estava fria, já era quente "em potência", mas também, que essa potencialidade por si só jamais chegaria ao ato, pois não se dá o que não se tem.

Logo, se há evolução, há uma causa da evolução. Deixando de lado o ponto se essa evolução é ascendente ou não (suponhamos que os novos seres podem ser diferentes sem serem superiores), o fato de que indefinidamente estão se transformando os seres existentes em outros seres diferentes, exige que na base de todo o processo evolutivo está o fato da plenitude de ser capaz de atualizar, em última instância, todas as potencialidades inéditas que pela primeira vez na história do cosmos se atualizam e portanto não podem dever essa atualização a fatores intramundanos.

E também vamos supor que a evolução implica uma ascensão ontológica, do inferior ao superior, como parece ser de fato o caso, já que os paleontólogos e evolucionistas ordenam a série de espécies vivas de modo ascendente, até chegar ao homem.

É claro, no entanto, que na visão aristotélica da mudança do novo ser de fato já estava em potência no ser anterior, e a função da "causa eficiente" é "tomar" o ato de potência do sujeito. Aplicado na evolução, isto quer dizer que as novas e superiores espécies estão em potência nas inferiores e que a função da Causa Primeira é atualizar essa potência. Isto se pode entender lembrando-se que em Aristóteles a matéria-prima está em potência para todas as formas e que são as formas as que determinam as diversas espécies. Neste sentido sim, Deus "tomaria" o superior do inferior, mas em sentido aristotélico, que não vai contra o princípio de não-contradição, já que na produção do novo ato o ser em potência contribui para que ele venha e a causa aficiente contribui sua atualidade capaz de atualizar a potencialide do sujeito.

Seria necessário para isto uma intervenção "especial" de Deus? Diante de tudo, lembremos que a filosofia e qualquer filosofia realista, supõe que a "intervenção" da Causa Primeira na Criação é contínua e fundamental: sem a Causa Primeira o ser contingente não teria razão de ser e portanto não poderia existir. O que perguntamos é se foi esse concurso geral e contínuo de Deus Causa Primeira na Criação, que faz possível o funcionamento normal e natural das naturezas criadas e portanto, não interefere com o mesmo, é necessário alguma intervenção específica na ordem do processo evolutivo como tal.

Dizer que "não" significaria dizer que o passo de uma espécie a outra se deveria, afora do concurso geral divino, só a ação das causas segundas, criadas. Mas justamente, antes que apareça uma nova espécie no Cosmos, não existe nele senhum ser dotado da atualidade necessária para produzí-la, mais ainda tratando-se de uma espécie superior. A não ser que se diga que o Criador encarregou esta obra aos anjos, criaturas puramente espirituais e superiores a toda natureza material. Mas, seja angélica, seja diretamente divina, parece que é necessário uma intervenção especial divina para que seja possível o processo evolutivo.

No caso do homem temos algo mais. Porque a forma definitiva da espécie humana, a alma humana, espiritual, não está em potência na matéria-prima, como se podem estar nas outras espécies não-humanas. De fato, tudo o que procede da atualização da potencialidade da matéria é um composto de matéria e forma e tudo o que se compõe de matéria e forma é material; a alma humana, que é imaterial, não pode portanto proceder da pontencialidade da matéria. E isso quer dizer que teve de ser dada direto por Deus.

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Toda esta explicação metafísica não tem por finalidade negar a necessidade das "causas" ou "fatores" da evolução que estuda a moderna biologia. Simplesmente porque essas causas, por causa do espírito positivo da ciência moderna, nos dizem só "como" as espécies tem chegado de fato a produzir-se umas a partir de outras. Não nos dizem "como ela tem sido possível sem contradição", que é a pergunta própra da filosofia, que aspira a entender de forma radical.

Podemos aceitar em princípio, como logicamente possível, ao menos, uma explicação baseada em mutações genéticas, por exemplo e "seleção natural". Mas na realidade o problema filosófico crucial está nesta "mutação genética", já que ela seria a responsável pelo surgimento do superior: a seleção natural, de fato, não seria mais que a encarregada de assegurar a "vigência histórica" desse superior que já existe no ato desde a "mutação".

Portanto, ao longo da potência do ato e o surgimento do novo e superior dado nessa "mutação genética" é o que reclama toda a filosofia acima exposta. A questão, como se verá, não é "científica", no sentido de nossas ciências modernas, mas, como também se verá, é perfeitamente racional. Isso quer dizer que é filosófica.

E note-se uma diferença entre as ciências e a filosofia: é possível, seja provável ou não, que amanhã a explicação do processo evolutivo a nível da biologia vá por outras causas e que em vez das mutações genéticas, e recorra a algum outro tipo de fator. Continuará a se pensar que houve uma mudança, que houve uma mudança do ser inferior ao superior e que houve uma atualização de uma potencialidade nunca antes atualizada no Universo material e que portanto, faz falta para ele uma casualidade extracósmica. A filosofia verdadeira é "perene" por vocação, como é "perene" a verdade, que não muda; enquanto que as hipóteses científicas são por natureza progressivas, dado que sua finalidade é antes de tudo uma explicaão possível, coerente, mas não necessária, de todos so fatos conhecidos, a seu nível, que é o de "como" sucedem de fato as coisas e não de como é possível, absolutamente falando e sem contradição, que sucedam. E isso faz que sempre seja possível, a nível das ciências, que surja uma explicação melhor.

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Este primeiro homem, então, se por fora não era fácil de identificar, talvez, de seus primos primatas, em seu ser profundo, essecial, era algo de outra ordem, se bem que essa riqueza, afora sua base humana, não era mais que uma imensa potencialidade, uma promessa certa que deveria ir se atualizando e ao contato com a experiência da vida, ao longo da história da humanidade.

No fundo, é a imagem do livro de A. Clark, "2001 - Uma Odisséia no Espaço" (veja no entanto o que dizemos mais abaixo sobre a natureza específica do ser humano). Só é necessário substituir ao monolito de origem extraterrestre pelo poder de Deus Criador, o qual como explicação muito mais satisfatóira, já que nos evita a ter que perguntarmos que outros tipos de extraterrestres colocaram o monolito no planeta dos que o colocaram na Terra e assim até o infinito.

Comprendemos, então, a relação que na origem do homem tem a mudança gradual e lenta e a transformação súbita e radical. A formação de um organismo semelhante ao do homem atual pode ter levado talvez milhões de anos. Mas o passo do não-homem ao homem pode ter sido instantâneo. Pois não há fim médio entre os dois (princípio de terceiro excluído). Não há fim médio pensável entre ter essa potencialidade em certo modo infinita própria da natureza humana e não tê-la, entre estar ambracado nesse processo infinito de transformação e crescimento histórico, marcado pela inteligência e a liberdade e não está-lo.

Agora está claro que toda essa riqueza não pode vir do nada, nem tampouco da pobreza interior. Quando por trás de séculos de evolução o corpo humano esteve passando, uma ranformação súbita ao mais avançado, altgerou radicalmente a natureza daquele ser e ao contato com o dedo de Deus, Adão abriu pela primeira vez os olhos.

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Iso deveria, se não nos enganarmos, colocar um pouco de tranqüilidade a tantos teólogos contemporãneos que se perguntam angustiados que fazer com o estado de "justiça original" que a tradição católica ensina a propósito dos primeiros pais do gênero humano. Na realidade, muitos deles já não se preocupam. Lhes parece incompatível com a visão evolutiva do cosmos. O primeiro homem tem sido um ser bastante miserável, a seu juízo, apenas algo mais que um macaco,e é absurdo, dizem, supor que estava no estado de graça , habitado pela Trindade, sem pecado, iluminado por sua inteligência e vontade sem doença ou morte. Não há nada disso, dizem, nos registros arquelógicos. E não é evolutivo, dizem, a passagem do superior ao inferior, quer dizer, a queda que havia significado para o gênero humano a perdição desses dons "preternaturais".

Por um lado, nossa explicação mostra que efetivamente é possível pensar uma continuidade física bastante estreita entre o homem e o pré-humano. Contudo, tem que se fazer justiça as reflexões antropológicas contemporâneas (por exemplo, Leonardo Polo) que nos dizem que o corpo humno é essencialmente diferente do dos irracionais. O homem, tampouco o primeiro, não é um macaco com alma espiritual. Tampouco pode ser um "hominídeo" com alma espiritual. Por mais perto que o hominídeo tenha estado fisicamente com o homem, tem que se reconhecer que a irrupção da alma espiritual, forma substancial do corpo humano, tem provocado uma mudança substancial, também a nível físico. Olhe o dualismo.

Por outro lado, não está muito claro, ao nosso ver, que classe de prova pedem os teólogos em questão na paleontologia, já que falamos de realidades espirituais e invisíveis que seriam muito raras de se encontrar em camadas sedimentares. É certo que até agora, por exemplo, os paleontólogos não puderam achar uma alma antiga o suficiente para dizer que era de um neandertal ou de um cro-magnon. E menos ainda podem dizer, pelos dados atuais, se estavam dotados de graça santificante. Mas é pouco provável que o façam no futuro.

Não cremos tampouco que ao estado de santidade e união com Deus que a teologia tradicional atribui ao primeiros pais deve-se necessariamente ser unida a um desenvolvimento cultural e industrial capaz de deixar rastros históricos, mediante a invenção da escrita. Cremos, segunda a fé da Igreja, que a santidade é possível ainda no meio do analfabetismo e que em definitivo se trata de questões de ordem diferente.

Enquanto se é "pouco evolutivo" que o primeiro tenha havido um alto e logo um baixo, só podemos responder que assim é a vida, e que as mais famosas criações do gênio humano, como por exemplo, a "lei evolutiva do Cosmos", ás vezes são desmentidas pela realidade. Em todo caso, teria que se dizer que ao Criador a idéia de uma "lei evolutiva" não teria feito tanta força como a Teilhard de Chardin. Questão de opiniões, como se vê. Falando sério, é certamente ao "teilhardismo", e como não a ciência, que se deve essa explicação da evolução a todo âmbito da natureza e ainda do ser. Isso já não é ciência, tambpouco é filosofia, ao menos, a boa. 


Tradução: Emerson de Oliveira


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